Depressão de estimação
Me perguntaram se tenho depressão.
Respondi que sim!
Não a depressão dos que se cortam, se drogam, se matam, tenho uma depressão de estimação
que crio solta no meu quintal, brinca comigo e eu com ela; Depressão que vem e vai do nada quando vem me acaba, me sinto fria, deprimida, desgastada, insuficiente, efervescente...uma gota de licor amargo! Alimenta-se da minha auto-estima e me leva a viagens que jamais conseguiria sozinho. Do vasto campo da languidez ao profundo oceano de dor e insignificância lá onde os detalhes fazem sentido onde cada pensamento é ouvido onde nuvens mórbidas maquiam o dia e as lamentações se tornam poesias; Lá os pais do mal do século me encorajam a continuar com isso e entendo que tenho nas veias o sangue ultra-romântico dos que se iludem, se apaixonam e sofrem por amores impossíveis.
A depressão não respeita limites, mas eu tenho a técnica de domesticar animais selvagens, eu sei o caminho, as pegadas e o cheiro das feras...Canalizo os seus ataques e os transformo em palavras... doravante textos do que você lê e não dá importância tem muito de mim, muito da minha dor e esse lugar é um livro de memórias de uma carnificina grande parte de cada texto é um retrato de sangue e carne lacerada nessa brincadeira masoquista; Mas os textos que saem de mim, valem o tempo que passei sem sorrir, só penso em escrever quando me sinto depressivo e de fato escrevo quando sinto que ela começa a me prejudicar minha depressão morre de medo de poesia! Começo a escrever e quando me dou conta, já foi embora, da mesma forma que veio... do nada. Às vezes ela me esquece e eu sinto sua falta, então a invoco, com quarto escuro e uma musica melancólica de fundo, na verdade brincar com a depressão é brincar com fogo! faço parte do time dos artistas ígneos se acertamos fica bonito, se erramos ele pode acabar conosco, é um risco que sempre haverei de correr e eu tenho uma depressão domesticada, mansa e tranquila... minha depressão de estimação. [Izaú Melo]
